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Nesta Pandemia, Você Está Pensando Na Sua Higiene Mental? – Entrevista Com Augusto Cury

Nesta pandemia, você está pensando na sua higiene mental? – Entrevista com Augusto Cury

Um dos psiquiatras mais lidos no mundo e autor de 55 títulos publicados em mais de 70 países, o pesquisador e escritor tem sido ainda mais solicitado durante a pandemia do novo coronavírus — seu livro “Ansiedade – Como enfrentar o mal do século” inclusive voltou à lista de best-sellers no Brasil.

O autor concedeu entrevista ao caderno de Cultura do O Globo, a qual reproduzo aqui, com especial destaque aos temas relacionados com a inteligência emocional durante esta pandemia que mudou nossas vidas.

Entrevista com Augusto Cury:

Qual a primeira constatação que você faz deste momento atual?

Toda vez que se comprime um ser humano, aumenta-se o nível de estresse cerebral. Por isso, neste momento, as pessoas acabam entrando em contato com janelas traumáticas que financiam autocobrança, autopunição e necessidade neurótica de apontar falhas nos outros, além de intolerância a contrariedade e asco ao tédio.

Tédio tem sido motivo de muita reclamação por quem está em isolamento social.

Sim, mas o tédio é um fator importantíssimo para as pessoas se reinventarem. É uma experiência emocional que pode gerar angústia e ansiedade, com nó na garganta, dor de cabeça e aperto no peito. Mas também pode motivar um impulsionamento da criatividade, com produção de ideias e vontade de planejar o futuro. Infelizmente, porém, o ser humano não sabe mais lidar com o tédio e a solidão, porque está intoxicado digitalmente. Gasta-se tanto tempo com as mídias sociais desde que Steve Jobs lançou o primeiro smartphone, em 2007, que as pessoas não conseguem mais se interiorizar.

Esse comportamento está mais claro agora?

Estamos na era dos mendigos emocionais, com crianças e adultos que precisam de muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. E isso se exacerbou na quarentena. As pessoas não estão preparadas para lidar com o ensimesmamento. O que ocorre não é apenas a mudança de um estilo de vida. A síndrome de intoxicação digital faz com que as pessoas sintam um vazio existencial se não estiverem conectadas. É uma atitude autodestrutiva, pois o mundo real pulsa fora dos aparelhos digitais.

Esse problema traz à tona uma questão citada em seus livros, sobre o valor do tempo presente. Mas o confinamento inevitavelmente nos leva a pensar sobre o passado ou o futuro.

Sim, você tem toda a razão. A mente humana tem essa tendência de ruminar perdas, mágoas e frustrações do passado e antecipar sofrimentos, asfixiando-se pelo futuro. Todos nós infectamos o presente, único momento em que é possível ser relaxado, realizado e totalmente feliz. É por isso que estamos na era da ansiedade. As pessoas desaprenderam a viver. Não sabemos ter um caso de amor com a nossa saúde mental. Mas vivemos agora uma grande oportunidade para pensarmos em como nos reinventar.

As pessoas estão preparadas para essa reinvenção?

Infelizmente não, porque a educação mundial está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente. Do ensino fundamental às universidades, a educação cartesiana é excessivamente exteriorizante. Ela ejeta as pessoas para fora, mas não as ensina a gerir suas emoções.

A educação está mais preocupada em formar consumidores?

Exatamente, a educação cartesiana nos tornou um número de identidade, de passaporte e de cartão de crédito e um consumidor em potencial. E é por isso que os índices de suicídio estão aumentando… Quanto pior a qualidade da educação, mais importante é o papel da psicologia e da psiquiatria, e elas nunca foram tão importantes quanto hoje. Na China e em outras nações orientais, os pais já percebem que os filhos também precisam de educação socioemocional. A educação racionalista é um risco para a saúde mental.

Mas como mudar essa realidade?

A educação precisa sair da “era da informação” e ir para a “era do ‘eu’ como gestor da mente humana”. Deixaremos assim a “era do apontamento de falhas” para entrar na “era da celebração dos acertos”. Alguns comportamentos deveriam ocorrer sistematicamente nesta quarentena: pais deveriam celebrar os acertos dos filhos; casais deveriam elogiar comportamentos um do outro, como atitudes afetivas, silenciosas e emotivas. Se nós não aprendermos a aplaudir uns aos outros, nosso córtex cerebral não abrirá janelas saudáveis para neutralizar traumas.

Essa é a sua maior recomendação para quem está em confinamento social?

O ser humano tem uma tendência atroz de ser o seu pior inimigo. Ele desenha os seus cascos mentais e se aprisiona dentro deles. Por isso, é fundamental gerir a emoção nestes tempos atuais. Infelizmente, durante a quarentena, as pessoas fazem a higiene física mas esquecem a higiene mental. Não podemos ser escravos das nossas mazelas. Até o último suspiro existencial, todo mundo deveria fazer diariamente a técnica do DCD (duvidar, criticar, determinar).

Como funciona essa prática que você propõe em seus cursos?

Há algumas técnicas:

1) não ser apontador de falhas, pois quem faz isso está apto a consertar máquinas, mas não a construir belas histórias de amor;

2) aprender a aplaudir os acertos, todos os dias, de quem amamos;

3) quando for falar de um erro ou falha alheia, exaltar, antes, um acerto dessa pessoa;

4) baixar o tom de voz quando alguém elevá-la, tendo em meta conquistar o coração e não a necessidade neurótica de ganhar a discussão;

5) aprender a se colocar no lugar dos outros para enxergar o que as palavras não disseram, pois por trás de uma pessoa que erra ou fere há uma pessoa ferida;

6) não se tornar uma pessoa repetitiva, para não virar alguém insuportável;

7) não sofrer por antecipação, para não realizar velórios antes do tempo.

Existe uma diferença entre os apontamentos que você faz como médico-psiquiatra e como escritor best-seller?

Veja bem, alguns dizem que sou o psiquiatra mais lido do mundo na atualidade. Mas me sinto apenas um carregador de pedras. Antes de publicar meu primeiro livro, escrevi três mil páginas sobre o processo de construção do pensamento e de formação do “eu como gestor da mente humana” e atendi mais de 20 mil sessões psiquiátricas. Nessa minha trajetória como pesquisador e psiquiatra, sempre tive preocupação sobre os caminhos da humanidade. Antes de nós, a sociedade moderna já era doente e exteriorizante, com uma necessidade neurótica de controlar os outros para que todos fossem nossos iguais e semelhantes. Isso tudo indicava uma rota perigosa.

E agora? As perspectivas para o futuro podem ser piores?

Quando escrevi “Holocausto nunca mais”, fui às lágrimas. Ali, falo das técnicas que os nazistas usaram e das realidades dramáticas do campos de concentração, e também por que outros Hitlers podem aparecer por aí caso não aprendamos a ter um caso de amor com a espécie humana. Se a Alemanha de Kant, Hegel e Schopenhauer produziu um homem tão radical e violento, no futuro, talvez nas próximas décadas, se houver um estresse derivado de escassez e insegurança alimentar, além de outros fatores sociais, podemos ver uma radicalização excessiva da sociedade. Mas não estou falando que isso acontecerá agora. Só acho que, nas próximas décadas, teremos que tomar muito cuidado.

Os cursos derivados de suas obras são adotados pelas mais diversas instâncias, tanto em escolas e empresas quanto em departamentos da Polícia Federal. Como eles funcionam?

Veja bem, como pesquisador, escritor e psiquiatra, não tenho bandeira. Minha bandeira é o ser humano. Não importa partido A ou B. Tanto que sou publicado na China, no Japão, na Polônia e em vários outros países… Meu objetivo é contribuir com a humanidade para que todos sejam autores da própria história. Se tenho diferenças políticas e ideológicas com alguns? Sim, mas é na diferença que nós nos identificamos e nos abraçamos. Na diferença, nos respeitamos. Mas o mundo está polarizado…! Por isso, fico contente que não apenas as empresas e escolas adotem o projeto.

Seus livros são rotulados como autoajuda. Você se enxerga dessa maneira?

Você sabe que não, porque meus livros são usados em inúmeras universidades e por cientistas em várias partes do mundo. Como escrevo alguns livros em linguagem mais simples para democratizar a ciência, é possível que algumas pessoas tenham esse conceito. Mas isso é muito diminuto. Na verdade, grande parte das pessoas sabe que não tenho nada a ver com autoajuda. Divulgação científica e democratização do acesso a informação é o que todo cientista deveria cultivar. Todo pensador deveria expor suas ideias no teatro social. As pessoas não podem se fechar nas suas redomas, nas suas salas de aula e nos seus centros de pesquisa.

Existe uma carga de preconceito com relação às obras tratadas como autoajuda. Você sente esse peso?

Olha, essa pandemia tirou muitos médicos e cientistas de dentro de seu curral ideológico. E isso é necessário! Não escrevo para fazer sucesso nem para um público específico. Mas escrevo e reescrevo cada obra cerca de dez vezes, para que o texto seja mais atraente e claro. A linguagem, para mim, é tão importante quanto o conteúdo. Meus primeiros livros eram muito fechados, e foram mais usados em teses de mestrado e doutorado, como o “Inteligência multifocal”, muito hermético. Depois que publiquei essa obra, aliás, eu percebi: ou democratizaria a minha linguagem, ou viveria fechado dentro de uma universidade.

Você lançará seu 56º livro em agosto (a data pode ser alterada, a depender do avanço, ou não, da pandemia). Como é a sua rotina de produção?

Quando tenho uma obra pautada, escrevo noite e dia, dia e noite, sem horário pré-estabelecido. Normalmente, sou completamente tomado pelos personagens, e não sei o que acontece com a minha mente. Surgem ideias de livros todos os dias, além dos temas mais variados. Algumas obras demoram de quatro a cinco anos para serem gestadas. Mas muitos assuntos surgem na minha mente, e tenho que ficar atento com a gestão emocional. Primeiramente, penso nisso para mim. Tenho que aprender a desacelerar a minha mente, contemplar o belo e fazer das pequenas coisas um espetáculo aos olhos.