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Mario Sergio Cortella Fala Sobre Corrupção, Família E Educação

Mario Sergio Cortella fala sobre corrupção, família e educação Ausência dos pais, falta de limites e até hipocrisia estão afastando os filhos da ética que tanto pregamos.

“As famílias estão confundindo escolarização com educação. É preciso lembrar que a escolarização é apenas uma parte da educação. Educar é tarefa da família. Muitas vezes, o casal não consegue, com o tempo que dispõe, formar seus filhos e passa a tarefa ao professor, responsável por 35, 40 alunos.” As críticas são feitas por Mario Sergio Cortella professor, educador e filósofo brasileiro.

E essa fórmula não tem dado certo. O aumento da violência nas escolas, a falta de limites dos filhos, a ausência dos pais andam de mãos dadas – e o resultado pode ser algo que o brasileiro conhece muito bem: a falta de ética. Afinal, a ausência de um adulto que sirva de exemplo pessoal e cotidiano a ser respeitado pela criança tem impactos ao longo de toda vida e estas consequências vão afetando tudo ao redor, resultando em uma sociedade corrupta, como tanto gostamos de apontar e reclamar.

Escrito em parceria com Clóvis de Barros Filho

Mario Sergio Cortella | Livro Ética e Vergonha na Cara

Mas, qual a nossa parte neste processo? Como pais, como podemos criar pequenos cidadãos prontos a semear uma transformação ética na sociedade? Não perca esta fala de Mario Sergio Cortela sobre a relação entre família, corrupção e educação, extraída do livro Ética e Vergonha na Cara!

Se há algo que fragiliza a capacidade de formação e convivência, é essa frouxidão em relação aos elementos em que o pai ou a mãe podem ser corrompidos. Se a corrupção dentro de uma família for admitida, ela ali se estabelecerá.

Crianças aprendem desde bebês, ainda no berço, como fazer isso, seja com o choro ou com o bracinho esticado, seja com o tipo de afago ou com relação ao beijo. Isto é, ser corrupto é uma possibilidade quase berçária.

Se, na constituição do estado familiar, nessa esfera da vida privada, não houver uma conduta que se defina, abre-se a possibilidade da negociação corruptiva. E desse ponto de vista, há o estilhaçamento da disciplina, da ordem e, ao mesmo tempo, da sanidade daquela condição. Nós aprendemos a fazer isso com facilidade. O cinismo, o fingimento são atitudes que, nesse caso, comprometem o entendimento, a harmonia familiar.

Nessa hora, volto a um ponto: o pai ou a mãe, ou aqueles que criam uma criança – sejam dois pais ou duas mães –, precisam, acima de tudo, ser capazes da natureza exemplar. De nada adianta falar contrariamente à corrupção na vida estatal, mas no cotidiano contradizer essa conduta dentro da família.

Isto é, a criança observa que a relação do pai ou da mãe com uma eventual serviçal é de natureza autoritária e que, ao mesmo tempo, eles negam a ela o registro a que tem direito. Ou, por outro lado, o pai e a mãe pregam algo, mas, quando sondados por um agente público de trânsito, tentam minimizar o modo de relacionamento e até de penalidade que deverão ter.

Hoje, nós temos um confronto muito grande no espaço do ensino fundamental, porque uma parte considerável das crianças, especialmente as de classe média, não convive com adultos durante o dia. Elas se levantam da cama sozinhas com uma tecnologia que as desperta, elas mesmas pegam o lanche eventual que vão tomar, saem sozinhas para ir a pé ou para pegar o veículo que vai levá-las até a escola e só vão encontrar um adulto à noite.

Muitas vezes, o único adulto que encontram no dia a dia é a empregada doméstica – dependendo da camada social –, de quem elas são chefes, em quem elas mandam e a quem elas corrompem eventualmente. Nessa circunstância, qual é o primeiro adulto que a criança encontra no seu dia a dia?

O professor, que é aquele que vai dizer: “Cadê o uniforme? Fez a tarefa? Tira esse fone de ouvido. Não faça barulho nessa hora”. Não é casual que haja uma colisão entre aluno e professor, inclusive um aumento da violência, que é uma forma de constranger o profissional.

Hoje, na educação, há um modo de corrupção que não é de natureza monetária: é quando pai e mãe substituem a relação de respeito no trabalho do magistério pelo Código de Defesa do Consumidor. E, portanto, quando eles têm uma demanda no espaço escolar em relação ao filho, recorrem ao referido código e ensinam a criança a dizer: “Eu pago o seu salário”.

E assim, uma relação docente-discente, que tem também uma finalidade de elevação de convivência ética saudável, de formação científica sólida, de estrutura de cidadania, acaba sendo transformada em mercadoria.

O professor, considerado então um mero prestador de serviço, será comprado pela ameaça. Não é o dinheiro que vai comprá-lo. É outra forma de corrupção… Não quero encarar a corrupção apenas como aquisição financeira ou monetária, mas como tudo aquilo que esboroa e apodrece a nossa capacidade de uma convivência decente. E há muitos modos de corromper.

This Post Has One Comment
  1. Excelente pontuação do autor quando fala da corrupção através de ameaças aos docentes ,que se deixam corromper por medo . lembro-me que trabalhei numa escola de educação infantil onde nas reuniões de pais o diretor sempre enfatizava:” Vocês são os donos da escola , nossos patrões, pois são vocês quem pagam nossos salários”. No entanto, ouve um grande aumento da violência contra os profissionais nesse CMEI, a relação que deveria ser de interação, respeito, cordialidade, cidadania… passou a ser de medo.

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