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“Incapacidade De Parar é Uma Forma De Depressão”

“Incapacidade de parar é uma forma de depressão” Nilton Bonder defende a capacidade do descanso, da atenção e da presença para combater os danos da aceleração da vida

Os problemas gerados pela aceleração são tema constante em nossas aulas e palestras. A ansiedade, considerada o ‘mal do século’ por Augusto Cury, tem consequências muito mais profundas e graves do que meras tensão ou nervosismo, como a perda do significado e do amor pela vida.

A pressa esmaga o sentido porque a aceleração nos impede de verdadeiramente enxergar o mundo ao nosso redor, de vermos quem somos, de tomarmos decisões acertadas com tranquilidade e sabedoria. A aceleração impede a reflexão, a contemplação, o descanso.

Ano após ano, o tempo de descanso vem sendo cortado em nome de afazeres: as noites no computador, os fins de semana trabalhando, os minutos de sol que agora são dedicados à tela do celular. Cada segundo de pausa mental, crucial para nossa organização interna, está sendo levado por atividades ligadas a mais atividades e a mais atividades. Quando paramos para fazer um balanço disso tudo?

No texto Os domingos precisam de feriados, o rabino brasileiro Nilton Bonder faz uma importante reflexão sobre a pausa, mostrando como parar não é apenas relacionado ao trabalho, mas sim um processo essencial na natureza. Segundo Bonder, “a prática espiritual deste milênio será viver as pausas”.

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OS DOMINGOS PRECISAM DE FERIADOS | Por Nilton Bonder

Toda sexta-feira à noite, começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta. Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações ‘para não nos ocuparmos’. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar.

E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo.

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim.

Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.

Nossos namorados querem ‘ficar’, trocando o ‘ser’ pelo ‘estar’. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos.

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair – literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é ‘o que vamos fazer hoje?’ – já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande ‘radical livre’ que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria. Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois.

A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.

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