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Entrevista Mário Corso: Não Ensinamos Nossos Filhos Sobre O Que Mais Importa

Entrevista Mário Corso: não ensinamos nossos filhos sobre o que mais importa Psicanalista especialista em adolescentes defende que as bolhas de proteção em que mantemos as crianças têm estourado de forma abrupta demais, gerando graves problemas na adolescência

Em 2017, o psicanalista Mário Corso, especialista em tratamento de adolescentes, foi convidado para dar uma palestra aos alunos de uma escola no interior do Rio Grande do Sul. O surpreendente é que ele não foi convidado pela direção da escola, professores ou até mesmo pelos pais. A iniciativa partiu dos alunos.

Eles tinham identificado uma colega com ideias de suicídio e decidiram formar uma rede de cuidado. “Os colegas estão mais próximos e sabem melhor do que ninguém quando algo realmente sério está acontecendo”, diz Corso. “Essa experiência de ajudar a combater o mal-estar na escola, de entender as dificuldades da socialização, seria uma formação extra e muito proveitosa que a escola pode dar aos adolescentes. Existem muitos adolescentes cuidadores. É preciso fazer uma aliança com eles.”

O psicanalista explica que, nessa fase, o adolescente entra em contato com o que chamamos de “mal-estar da civilização”. Nessa época da vida, as pessoas se dão conta de que o mundo “é um lugar muito sem utopia, sem esperança”, o que pode provocar o desespero. “É uma depressão típica da adolescência, você se dá conta do peso do mal-estar no mundo, e isso varia conforme o ambiente político e cultural”, diz ele, ressaltando que, atualmente, o Brasil e vários países do mundo experimentam momentos de perspectivas pessimistas.

Porém, Corso é enfático na relação entre suicídio e depressão: “O suicídio vem em vários quadros clínicos e às vezes não tem nada a ver com a depressão”, ressalta. “Pode ser uma psicose. Nesse caso, o sujeito não é deprimido. E às vezes a depressão é uma defesa contra o suicídio. Parece que não tem sentido, mas tem.”

Há uma década, um jovem de 16 anos, conhecido por Yonlu na internet, tirou a própria vida em casa, depois de pedir e obter auxílio em um fórum na internet sobre métodos eficazes de suicídio. O jovem Vinícius Gageiro Marques era filho de uma reconhecida psicóloga e era paciente de Mário Corso.

Segundo Corso, hoje em dia, o risco que a internet oferece aos depressivos é o mesmo, mas uma melhora é o fato de cada vez mais pais terem a consciência desse perigo. “O que mudou agora é o alerta”, diz ele, ressaltando ainda que a internet potencializa o bullying. “As pessoas estão se dando conta de que o bullying hoje está pior. Antes era na escola, a pessoa sofria, mas depois ia para casa. Agora ele não para, não para nunca, é um inferno.”

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Mais de um ano após o suicídio de seu jovem paciente, Corso concedeu uma entrevista à Eliane Brum que se tornou uma referência no tema, pela profundidade e honestidade com que falou sobre o que viveu. A morte do adolescente marcou um momento em que as pessoas perceberam que, com a internet, os jovens frequentavam mundos que pais e professores não alcançavam.

Agora, Corso retoma o debate com a jornalista, trazendo novas questões como o rompimento da bolha de proteção que jogamos sobre as crianças e a polêmica série da Netflix, 13 Reasons Why.

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Você acha que o sofrimento que provoca o suicídio hoje, na era da internet, é diferente do sofrimento que provocava o suicídio nos adolescentes de gerações anteriores?
Mário Corso: Creio que o sofrimento dos adolescentes é o mesmo. Uma solidão imensa, uma sensação de inadequação, uma desesperança próxima ao desespero. A ideia que não há lugar no mundo para si, um mundo complexo demais para ser decodificado, aliado ao momento de fragilidade dos laços entre os pares, é um cruzamento perigoso e doloroso. O que mudou foram as possibilidades de comunicação. Para o bem e para o mal. Por exemplo, o bullying antes era restrito a um lugar, ficava na escola. Hoje ele não para, não dá trégua e não dá àquele que sofre o direito de recomeçar. A internet não esquece.

Estar marcado em um colégio, por uma experiência negativa, antes podia ser solucionado trocando de escola. Hoje, você leva contigo aquilo que gostaria de esquecer. Uma pesquisa rápida e tua ficha é entregue. Por um lado, a rede pode até ajudar os mais fóbicos, pois ela permite ensaiar-se em um ambiente onde o corpo não está em jogo, e propicia a pessoas de hábitos diferentes encontrarem sua praia. Por outro, ela também tem seu lado obscuro: permite que portadores de sofrimentos e patologias, que antes eram isoladas, como a anorexia, se apoiem em parceiros, igualmente tomados na loucura, que incentivam seguir dentro da doença e dão a ela um sentido de pertença, de identidade, muitas vezes letal. O mesmo com o suicídio.

Antes isolado, o adolescente tinha menos recursos, até, digamos, técnicos, para saber como se matar. Raramente ele iria encontrar pessoas tão ou mais perturbadas para trocar ideias sobre as “vantagens” do suicídio. Na rede, seguem existindo fóruns de proselitismo do suicídio.

O que a morte de Yonlu mudou na sua clínica ou no seu modo de entender o suicídio?
Mário Corso: Não houve mudanças significativas na clínica ou no entendimento das razões do suicídio. A principal mudança foi em mim. Desci mais um degrau da minha personalidade já melancólica. Já tinha perdido pacientes, mas casos graves, adultos vindos de anos de depressões crônicas, dos quais, entre idas e vindas, eu fui apenas mais uma tentativa fracassada. São perdas distintas. Sendo nesse caso alguém tão jovem, talentoso, inteligente, é difícil se apaziguar. Os psicoterapeutas elaboram pouco sobre os efeitos de serem depositários e testemunhas de tanto sofrimento. Mas são cicatrizes incuráveis. Talvez um dia eu consiga entender melhor tudo isso. Ainda lateja.

Desde aquela época, mais de uma década atrás, a sua postura era de que era necessário falar sobre o suicídio. Mas só agora, e em grande parte por conta de séries como 13 Reasons Why (“Os 13 porquês”, Netflix), o silenciamento sobre o suicídio entre adolescentes começa a ser rompido. Por que é importante falar e o que você gostaria de dizer?
Mário Corso: Falar sobre o problema já é um começo. É um assunto tabu, ninguém se sente à vontade para dar a partida. Ninguém sabe bem o que dizer. O que está em jogo é o sentido da vida. E quem sabe dizer por que a vida vale a pena? Não sabemos dizer até porque é uma questão mal colocada. Não existe resposta racional. A resposta é emocional. Vivemos não por razões, mas por pertencer a uma rede afetiva, por ter uma sociedade que nos dá um lugar. Estamos aqui porque alguém um dia quis assim e ficou inscrito em nós essa marca. A vontade de viver é algo que os pais transmitem, ou não, sem dar-se conta. Mas é um território imponderável, nebuloso.

Acredito que estamos no momento de construir algo novo. Creio que a arte já começou. O seriado da Netflix foi um bom começo. Antes de ele ser feito, eu não acreditaria que daria certo. Tomado pelo paradigma de Werther, de que narrar o suicídio emularia outros, eu não faria. (No século 18, após a publicação do livro Os sofrimentos do Jovem Werther, do escritor alemão Goethe, teria havido uma onda de suicídios de jovens na Europa que foi considerada efeito do romance.) A Netflix fez, e a resposta foi oposta: mais gente falando no assunto e pedindo ajuda.

O que você, que analisa a produção cultural pelo viés da psicanálise, acha da série?
Mário Corso: Ela tem uma grande sacada: eles criaram um herói romântico aparentemente típico. Hannah, a personagem, é uma alma sofrida e sensível, que passou por traumas e é incompreendida. O mundo não seria bom o suficiente para ela. Mas, no decorrer da série, ela se comporta de forma tão pouco empática ao sofrimento dos outros, ela é tão autocentrada e egoísta, que ninguém quer ser como ela. Ela exige cuidado e uma delicadeza que ela mesmo não tem com ninguém. Ela é cega à dor alheia. Ou seja, eles viraram o fio. Ninguém vai querer ser a Hannah mesmo que admitamos que ela tem suas razões e seu sofrimento. Ela ajuda e narra a dor e a vontade de ir embora, mas não desperta identificações diretas.

Se um estúdio de TV inventou uma narrativa que faz falar sem estimular o ato, por que a comunidade de quem trabalha com saúde mental não conseguiria? Nós temos é que nos botar a pensar. É um tempo de inventar. Creio que é um desafio que temos que nos colocar. É preciso dar uma visibilidade ao problema real que o suicídio é. Não noticiar os casos, mas encontrar uma nova via de ele estar sempre em pauta.

>> Assista à série 13 Reasons Why (assinantes Netflix)

Existiria algo na educação dada atualmente às crianças e aos adolescentes que os deixariam mais vulneráveis?
Mário Corso: É algo que se pensa pouco. Nós temos uma conquista civilizatória interessante, que é a infância protegida, reconhecida em suas particularidades. Não devemos mudar isso, mas talvez pensá-la melhor. Nossas crianças crescem numa bolha de proteção que rompe na adolescência. Abruptamente, descobrem a dureza do mundo, a violência, a exigência desmedida – nesse caso, às vezes dos pais. Sentem-se traídos pelo mundo de conto de fadas que receberam.

Será que não exageramos, que não haveria um modo de desde mais cedo mostrar o mundo como o mundo realmente é?

Existe uma depressão típica do começo da adolescência que diz respeito ao dar-se conta do peso do mal-estar da civilização. Utopias já não colam, vivemos na época das distopias, crenças religiosas tampouco, o jovem sente que está em um mundo absurdo. E precisamos pensar que ele não desenvolveu os anticorpos que nós já temos… Isso chega de modo à vista. Será não poderia ser em suaves prestações?

Brinco, mas creio que exageramos na dose do mundo Disney. Em resumo: não os preparamos para o infortúnio, não discursamos sobre as derrotas, as perdas, e elas são a única certeza nessa vida. Ensinamos a ganhar, a dizer que serão vencedores. Ensinamos o fácil e esquecemos o essencial: saber suportar as rudezas de um momento civilizatório complicado.

> Dica de leitura: Ensinem os filhos a falhar – psicanalista belga defende que ensinar a apenas vencer e a conseguir tudo que quiser pode estar massacrando os filhos.

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Dolores Bordignon tem mais de duas décadas de experiência clínica, somando centenas de casos individuais, de famílias e casais que desejam construir novos paradigmas. Suas palestras e workshops trazem à luz a importância da inteligência emocional para as relações pessoais, profissionais e familiares. Conheça o trabalho da psicopedagoga em nosso site. Entre em contato com Dolores Bordignon para promover um evento em sua instituição.

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